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Um homem comum
Nasceu em um lar comum. Filho de um homem comum e uma mulher ainda mais comum. Teve uma infância comum, com suas alegrias e suas tristezas comuns. Durante a juventude, quis ser jogador de futebol, mas, ao se deparar com a falta de habilidade, somada à falta de coragem para tentar algo mais - fato bastante comum - optou por administração de empresas.
Enamorou-se e casou com uma garota comum. Ela cuidava do lar e, nas horas vagas, vendia produtos de beleza para reforçar a renda doméstica. Tiveram um casal de filhos. Um menino e uma menina. Ele queria ser jogador de futebol, ela, modelo.
O tempo foi passando e a idade chegando. Mas uma situação foi saindo do comum: ele não envelhecia.
No começo estava tudo bem. “Que genética boa”, comentava a vizinhança, mas o contraste entre as rugas da mulher, já com 64 anos, e sua eterna aparência de 35, começaram a gritar.
O assunto virou tabu, até mesmo na intimidade do lar. Ninguém comentava. Até que, no outono daquele fatídico ano, ela, já com 84 anos, faleceu, de morte natural. Tudo muito comum. Ele, ainda com cara de 35.
Os anos foram se passando, os filhos crescendo, os netos chegando, ficando adultos, se casando. Os bis-netos já alcançavam tenra idade, mas ele continuava com a mesma aparência e já atingia a idade de 121 anos.
Ao contrário do que muitos fariam, não tinha nenhum orgulho de sua condição. Ao contrário: sentia vergonha.
A família nem precisou pressionar: a vergonha era tanta que rarissimamente saia de casa. Adotou um auto-exílio para esconder de todos um fato fora do comum: não envelhecia, tampouco morria.
O assunto continuava tabu na família. Em um determinado natal, resolveu se vestir de Papai Noel, para, de forma discreta, participar da festa. Mas um dos bisnetos desconfiou de um Noel com a aparência tão nova, ainda que por trás de barba branca. Não aquentou o constrangimento e se retirou.
Décadas se passaram e, como já não era mais segredo para ninguém na vizinhança, resolveu ajudar um dos bisnetos, buscando na escolinha seu filho, já com 4 anos. Tudo muito comum.
A vida seguia seu ritmo comum, até que, na inocente maldade das crianças, a notícia de que era o tataravô, e não um tio, que ia buscar o menino todos os dias, começou a gerar mal estar entro os pais dos outros alunos.
No finzinho de tarde de um dia comum, ele foi surpreendido na recepção da escola. Aguardava-o um grupo de pessoas que fazia lembrar uma manifestação da Ku-Klux-Kan contra um único pai negro em uma escola de brancos. As coisas esquentaram e um dos revoltados partiu para cima com um taco de beisebol.
Foi o suficiente para todos os outros ajudarem a “resolver o problema”: um homem que não morre não é algo comum. Ao taco de beisebol, juntaram-se chutes e ponta-pés, desferidos sem dó sobre o homem que agonizava no chão.
Uma das crianças presentes no lugar jurou de pés juntos que, um pouco antes da morte, o pobre exibia um sorriso de alívio na face ensangüentada.
Ninguém foi processado e o caso acabou sendo arquivado por falta de testemunhas. Teria sido apenas mais um dia comum.
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